sexta-feira, janeiro 28, 2005

Por Terras de Sanabria (V)

16 de Janeiro de 2005

No topo do Moncalvo.



Podíamos de novo dissipar o nosso olhar nas longínquas distâncias, como o fizemos durante centenas de milhares de anos, sem esbarrar de súbito contra uma muralha de betão citadina. Estas visões despertam nas pessoas ideais de grandeza, contudo de uma nobre grandeza, despojada de fúteis sentimentos, de fúteis conflitos. Os nossos sentidos achavam-se todos alertas, perscrutando em redor a exótica flor que persistia em resistir brotando de um orifício rochoso, os animais ainda ingénuos, a perfeita simbiose entre o milagreiro musgo sphagnum e a flora envolvente nas permutas de elementos vitais. Mas sobretudo interessava respeitar e escutar o silêncio da natureza, da ordem natural das coisas.
Já com o grupo reunido avançamos para o cume do Moncalvo (2044 metros), não muito distante dali. Passamos por dois (desditosamente não duas como remotamente ainda idealizámos poderem ser) montanhistas espanhóis que dele regressavam e no marco geodésico aproveitamos para tirar as fotografias da etiqueta montanhística. Ora deixa ver! A roupa e o material nos conformes…peito pra fora, barriga pra dentro, um sorriso triunfador… trás…já está! Mais um memorável momento prá posteridade!
Regressávamos ao prévio corredor quando de súbito, com o seu finório olho-de-lince, o Smith avistou ao longe um lobo correndo no manto de neve. Alguns Amigos ainda tentaram capturá-lo com a objectiva da câmara, mas logo ele se escapou por entre os penhascos. Contudo outros prodigiosos motivos não se sumiram para fotografar. Aliás a luz na alta montanha cria ambientes fantásticos e atmosferas de um brilho intenso.
De novo no topo do corredor, apercebemo-nos que com a duradoura exposição da vertente ao Sol ao longo do dia a neve estava já muito tenra, perigosamente macia. E nestas alturas nunca convém esquecer que grande parte dos acidentes dá-se nas descidas e não ao contrário. Iniciámos então a descida em movimentos diagonais com o intuito de aligeirar o declive, e logo imprimir maior segurança à execução.
Na secção mais declivosa foi montada uma reunião para alguns de nós procederem a uma descida em técnica de rappel. Pela minha parte nunca perco uma rappelizada. Tanta animação que até enfiei um bico dos crampons pela polaina adentro. Ufa, não atingira as calças de Gore-tex! Tivera sorte! Mas mais valia estar calado pois pouco depois nos pontuais afundamentos das pernas nas neves movediças deparei que a perna esquerda soterrada obstava em sair. Puxei, puxei, nada! Bem lá tive que cavar com o piolet e as luvas uma cova ainda bem funda para libertar o pernil.
Apesar dos inúmeras ´façanhas´ do dia permanecíamos ínfimas criaturas face à grandiosa massa rochosa que sobre nossos pés assentava neste reino de contrastes, da branca e radiosa neve irmanada com a rocha pardacenta.