terça-feira, março 29, 2005

Pelas bucólicas Terras do Barroso… (III)


20 de Março de 2005



No Domingo, o grupo levantou as últimas amarras do acampamento cerca das 9.00 h. e dirigiu-se na direcção de Tourém, atravessando imensos lameiros e encostas verdejantes, onde o gado pastava pachorrentamente, em cotejo com alguns vales mais ermos e áridos, e do sombrio negrume das encostas alvo de recentes queimadas, necessárias, mas algo aversas ao olhar.

Cerca das 12.15 h. o grupo atravessava a ponte da Ribeira da Ponte Pequena, e o casario de Tourém perfilhava-se decano, em alguns casos mesmo secular, na nossa presença. Ali se perfazia, na sua totalidade, a trintena de quilómetros: monte acima, monte abaixo.

Tourém resta nos confins de Barroso, paredes-meias com a Espanha, um braço estendido (para alguns passadistas uma seta crivada) à Galiza. Mas o acolhimento neste burgo é sempre tão natural como o ar puro que aqui se inspira, e aqui prevalecem, como em Pitões, fortes reminiscências comunitárias e etnográficas praticadas por estas comunidades serranas, como é o caso do forno do povo, do trabalho colectivo ou do boi do povo, que mostra sua verdadeira têmpera nas famosas Chegas de Bois.

Os singulares usos, tradições e costumes nesta terra, que durante longo tempo foi compartida entre os galegos e os lusitanos (dizia-se que “uma casa de Portugal fica metida entre as da Galiza, e as casas da Galiza entre as casas de Portugal”) perdem-se no tempo, reflectidos na empírica sabedoria deste povo, deste Interior mais que profundo.

Acima de tudo percorrer Tourém e as terras do Barroso é ver, tocar e sentir bem no âmago de cada um, uma Ibéria sem fronteiras, sem grandes e míseros conflitos de rivalidade, sem grandes e nebulosos negócios, sem grandes processos judiciais, sem o compulsivo mega-consumismo das grandes urbes, sem a insegurança e o terror que a globalização também acarreta… mas onde a Natureza e os Homens são de uma grandeza ilimitada.

Nestas “Terras de Barroso”, reputadas de bem rigorosas e ásperas, de clima tão extremado, que delas se diz “o ano formado de nove meses de inverno e três meses de inferno”, o grupo foi desta vez acolhido com um tempo bem ameno e enxuto. Assim a boa-disposição e o espírito de equipa foram mais uma vez a tónica dominante ao longo deste fim-de-semana de espírito e alma bem Barrosã.

p.s. : Ah! E no final fomos comer um bom repasto ao restaurante "O Preto" em Pitões (cabrito barrosão, bife na brasa, cozido à Portuguesa, vitela, ... e um bom tinto a acompanhar!)


Pelas bucólicas Terras do Barroso… (II)


19 de Março de 2005





À medida que deixávamos a albufeira para trás, o declive acentuava-se e a luminosidade escapava-se na direcção do remoto oceano. Atravessou-se a aldeia do Outeiro e prosseguiu-se por trilhos que bordejavam os designados Prados de Lima onde a retalhada estrutura fundiária, separado nos socalcos por muros de pedras, é irrigada pelo sistema de água lima praticada há tanto tempo que o próprio tempo esqueceu.

Já se começava a vislumbrar na linha do horizonte Pitões das Júnias e a contígua capela de S. João da Fraga, equilibrando-se vigorosa no granítico monólito. No cursar das abundantes pastagens presenciava-se o nobre figurino da raça bovina barrosã que assume por estas paragens uma crucial valência económica, apossando-se das melhores parcelas. O que sobra destas é ocupado pelas sementeiras, numa agricultura de subsistência, confinada de sobremaneira à batata e ao centeio, intercalados com longos pousios. À arborização, traduzida nos castanheiros, vidoeiros, choupos ou carvalhos, resta o quinhão de terra indispensável ao provimento de madeira e lenha para a casa e mesteres agrícolas.

Chegou-se a Pitões das Júnias (a 1100 metros de altitude) à 19.15 h, já na intensa escuridão se ecoava o pretenso silêncio e a serenidade destes singulares lugarejos. Neste povoado ainda está bem presente o coeso comunitarismo agro-pastoril, manifesto através do forno do povo ou do boi do povo, em forte contraste com a aparência de mudança do burgo que lhe conferem os seus emigrantes, com as suas orgulhosas e desmedidas moradias. Aparentemente nos antípodas das graníticas casas de cobertura de colmo que ainda subsistem no Barroso mais rústico.

Ao fundo repousava o milenar Convento de Santa Maria de Júnias, ou o que resta dele, esquecido pelo tempo e pelos homens que o erigiram.

Já com o Loureiro e o Paixão acrescidos ao grupo montou-se acampamento base cerca de 3 km a nordeste de Pitões, no lugar de Veiga a Grande, bem abastecidos de água para confeccionar as iguarias, na Fonte do Quartilho ali próxima. O aparelhómetro indicava quase 23 km palmilhados desde a saída de Paradela.

Pelas bucólicas Terras do Barroso…


19 de Março de 2005





No fim-de-semana de 19 a 20 de Março a secção de montanha, dos “Amigos da Montanha” cumpriu mais uma etapa de um extenso itinerário pré-delineado (com cerca de 185 km), cujo propósito é a travessia global do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG), desde a aldeia de Castro Laboreiro até à vila de Montalegre, coincidente em grande parte do percurso com os limites do Parque, a poente e a sul. Nesta Rota são atravessadas as serras da Peneda, do Soajo, da Amarela, do Gerês e a região do Barroso; bem como algumas dos mais pitorescos povoados e paisagens que compõem este parque.


As etapas que compõem esta Rota são:

  • 1ª etapa - Castro Laboreiro-Soajo (realizada em 20-21/03/2004)
  • 2ª etapa - Soajo-Campo do Geres (realizada em 24-25/04/2004)
  • 3ª etapa - Campo do Gerês–Caldas do Gerês-Fafião (realizada em 20-21/11/2004)
  • 4ª etapa - Fafião–Cabril-Paradela (realizada em 12-13/12/2004)
  • 5ª etapa - Paradela–Pitões das Júnias-Tourém (realizada em 19-20/03/2005)
  • 6ª etapa – Tourém-Montalegre (realização prevista para 29-30/11/2005)

Nesta 5ª etapa a partida da sede de Barcelinhos processou-se por volta da 14.45 h., e duas horas depois já 20 calejadas botas de montanhistas, orientadas pelo Kata e o Peixoto*, sulcavam o solo na aldeia de Paradela (a 800 metros de altitude). O Paixão e o Loureiro foram entretanto levar as 2 carrinhas respectivamente a Tourém e a Pitões das Júnias, local onde se juntariam de novo com o grupo.

Contornou-se a vasta e panorâmica albufeira de Paradela que sustém as águas do Cávado, onde se evidenciava níveis aquíferos bem exíguos para a estação o ano, derivado da extrema secura que tem afectado as lusas terras (pelo menos) nos últimos tempos.

Nas terras de Paradela é já notória a transição para a região de Barroso: a sucessão das íngremes fragas e picos da serra do Geres transmuda-se aqui em boleadas serranias e montes, e o verde intenso das suas culturas e dos seus lameiros evidencia-se na graciosa paisagem.

* mais o António, Eurico (lado direito da foto), Fátima ,Fernando (eu), Isabel (em estreia absoluta nos Amigos e com distinta prestação), Marco, e Zacarias.

segunda-feira, março 21, 2005

Cruzando as belas serras da Peneda e do Soajo.


12 de Março de 2005



Participei com agrado na marcha de montanha organizada pela secção de Pedestrianismo, dos Amigos da Montanha, no dia 12 de Março de 2005.

O percurso da marcha seria entre o santuário da Senhora da Peneda e a aldeia do Soajo, num total de 16 km. O princípio geral das marchas desta secção, de serem abertas à população em geral, foi aqui mais uma vez reiterado, granjeando-se desta vez uma participação próxima dos 70 caminheiros, procedentes de inúmeros concelhos: Barcelos, Braga, Esposende, Fafe, Porto e arredores,… (e eu a representar Vila do Conde). Partiu-se cerca das 8.45 horas de Barcelos, com um autocarro completo e uma carrinha do clube, onde me incluía, guiada pelo presidente do nosso clube: Américo Alves.

Por volta das 11 horas e com um tempo primaveril, convidativo a uma auspiciosa caminhada, iniciou-se a marcha desde o terreiro do santuário, junto à Pousada, e onde se mira defronte o miraculoso templo cristão. Desceu-se o longo escadório (cerca de 3 centenas de metros em linha recta) e atravessou-se o largo onde um anjo da guarda, mirando-nos do topo de uma altiva coluna, nos passou a guiar pelos montes fora!

Desde logo ao longo do rio Peneda, cursando o seu vale, pela viçosa margem direita, cruzando o lugar do Baleiral, até à confluência deste rio com o rio da Veiga. Atravessou-se a aldeia de Tibo, alcantilada num interposto ponto da longa subida até ao lugar das Cruzes, onde se merendou em aprazível lugar, enchendo-se o bucho e também o espírito com a boa camaradagem reinante.

Com as energias redobradas avançou-se para a aldeia de Adrão. Seguiu-se depois o vale do homónimo rio, pela margem direita, passando ao lado da branda de Bordança e da branda de Murça, com as leiras de cereais e batata postas a viúvas de roceiros que as livrassem do crescente e sombrio matagal. A partir daqui certos trechos do percurso foram efectuados sob calçadas de lajes de granito, bem antigas, até à típica aldeia do Soajo, recentemente alvo de reabilitação urbana, rematando-se o percurso no agregado comunitário de castiços espigueiros, embutidos no portentoso penedo granítico, onde se registou prá posteridade um retrato geral do grupo.



Como prémio todos os participantes puderam levar uma t-shirt da Associação, para além de agradáveis recordações do convívio e da paisagem envolvente (também registada nas inúmeras fotografias captadas pelos participantes ao longo do percurso). No meu caso foi curioso encontrar um casal, recém-associados dos Amigos, e tal como eu, anteriormente filiados no também insigne e afável Grupo de Montanhismo de Vila Real.

Os meus parabéns aos coordenadores da secção de pedestrianismo: o Smith que a orienta, o João Coelho, o Agostinho, o José Costa e o Sousa; pela escolha e boa organização deste encantador percurso.

( + fotos em breve)

segunda-feira, março 07, 2005

No Circo Glaciar de Gredos (IV)


27 de Fevereiro de 2005

Gozar dos prazeres à nossa volta!


É sempre fascinante olhar em redor o Circo Glaciar de Gredos e observar a multiplicidade de técnicas invernais (e não só) que aí podem ser exercitadas: desde os estreitos e abruptos corredores alongando-se até cerca de meio quilómetro de extensão na vertical, a belas e amplas cascatas de gelo, a um vasto sortido de picos e arestas por vezes arranhando as nuvens, modelares paredes de escalada, longas pistas de neve para skiar,…
Uma autêntica universidade do montanhismo!

Instantes depois do meu regresso ao refúgio, juntou-se-me o Zé de Braga, ainda a convalescer. Tomámos um chá juntos e conversámos longos minutos na terraza do refúgio, com vista privilegiada para todo o Circo, enquanto a ele arribavam grupos de esquiadores e montanhistas equipados com raquetes ou somente cranpons, e um par de tarrotes resistentes e intrépidos debicavam o chão à cata de alimento…

Cerca das 12.30 h. o grupo do Venteadero chegava ao acampamento e começou-se a desmontar as tendas relativas a este grupo. Quando este grupo, eu incluído, nos preparávamos para regressar à Plataforma, chegava por sua vez o grupo do curso das técnicas invernais.

O regresso do nosso grupo foi feito a um ritmo compassado e o Peixoto que seguia atrás de mim inquiria-me (muito atencioso) periodicamente acerca do meu estado de saúde, que se revelava bem sadio. Já na Plataforma fomos na Citrõen até Hoyos del Espinos, à Bodeguilla, jantar cerca das 16.30 horas (lusas) Pouco depois chegava o outro grupo e às 18 horas partíamos de Hoyos. O mestre Garcia e o Hélder despediram-se de nós eufusivamente (pela minha parte agradeço-lhes tudo o que me ensinaram e a tibetana paciência que sempre demonstram/aram). Os amigos tiveram mais uma vez a gentileza de me deixar em casa, onde cheguei cerca das 01.00 h, já segunda-feira.


Este fim-de-semana que, pelo menos para mim, teve alguns desenvolvimentos inesperados e ainda de géneses bem nebulosas, mas que contribuíram para reforçar a minha inserção neste unido grupo, pois é nos momentos mais delicados que se vê (e sabe) quem são os verdadeiros Amigos, e todos demonstraram ser autênticos e bons AMIGOS (tal como o João e o Hélder*).

* destaquei aqui o João Garcia e o Hélder Santos pelo facto de eles não serem membros efectivos dos Amigos da Montanha

No Circo Glaciar de Gredos (III)


27 de Fevereiro de 2005

Um radioso novo dia!


O descanso pusera-me de novo em boa forma (mental, que física sempre estivera nos conformes), pronto para mais (des)aventuras. Tomei um pequeno-almoço bem reforçado, junto com o Abílio, o Augusto e Valdemar que para fazerem jus ao trio dormiram no Três Hermanitos, por sinal bem menos espaçoso que o Galana, apesar de ter maior lotação(?).

Espreitei pela janela, reparando que o dia amanhecera bem resplendoroso. Pude vislumbrar que no nosso (pois, nas imediações, mais outro se instalara) acampamento base já o pessoal se aperaltava a rigor e aprontavam-se nos fogareiros umas apetitosas bebidas. Pouco depois alguns Amigos vieram merendar para o interior do refúgio, provido de melhores condições.

Apesar da minha efectiva melhoria o João Garcia achou melhor que, por precaução, eu não realizasse a actividade da manhã.

Assim, cerca das 9 horas (lusas) o grupo do curso de Técnicas Invernais (José Carlos Araújo, Loureiro, Sá, Marco, Zacarias, Daniel, Cadinha, Abílio, Augusto e Valdemar; com a minha ausência e do Zé de Braga que durante a noite fora acometido por fortes dores estomacais e restou a descansar na tenda), foi guiado pelo João Garcia (e Hélder Santos) pelo trilho que conduzia ao Almanzor. O grupo realizou durante a ascensão múltiplas técnicas de progressão e auto-detenção em terreno nevado (encordado e desencordado). Meia hora depois (9.30 h.) partia o outro grupo, de sete elementos, orientado pelo Kata e o Carlos Peixoto, o Paixão, o António, o Rui, o Sousa e a Fátima, cujo propósito era realizar a ascensão à Portilla del Venteadero, localizado entre o Almanzor e o pico da Galana (2568 metros).

Pelo facto de em ambas as ascensões, durante o percurso, a espessura e macieza da neve serem deveras acentuadas, criando por vezes instáveis situações de neve e gelo, foram realizados, e por motivos segurança, somente pelos dois grupos trechos das ascensões (quer ao Almanzor, quer à Portilla del Venteadero).

Enquanto isto aprontei a minha mochila, aqueci e tomei uma sopa instantânea, e ainda aproveitei depois para dar umas voltinhas pelas imediações, trilhando os trechos iniciais do trilho à Portilla Bermeja e Almanzor e depois o trilho à Galana. Mas, em ambos os casos, umas meras centenas de metros adiante do refúgio as condições da neve dissuadiam a progressão, sobretudo desencordado (ou sem raquetes ou esquis), pois de vez em quando dava comigo enterrado quase até à cintura, quase submerso neste espumoso mar.

Ao longe as nuvens concebiam a miragem de um outro mar, este azul marinho, em contraste com o mar bem alvo que nos envolvia...

No Circo Glaciar de Gredos (II)


26 de Fevereiro de 2005

Uma má disposição que só tempo sanaria!



O nosso grupo, com a excepção do simpático trio de Santa Maria da Feira (o Abílio, o Augusto e o Valdemar) que por contingência maior ia dormir no refúgio, começou logo a montar as tendas. Durante a montagem da minha, com o Daniel e Cadinha comecei, de súbito, a ser acometido por náuseas e uma forte cefaleia. Logo associei que, as inúmeras voltas e voltinhas antes dadas para comprimir e alisar a neve, tinham, pelo menos, precipitada esta indisposição. Com a tenda montada pude então descansar no seu interior, mas a situação não melhorou nada e naquele mar de neve o barco já começava a revirar-se demais! Constando o estado em que subitamente imergira, foi acordado que seria melhor passar a noite no refúgio. Então muito solícito o Peixoto veio-me ajudar a levar o material para o refúgio.

A última vez que tinha estado no Elola tinha sido em Agosto de 2003, de passagem e para me refrescar com umas bebidas, quando fui com o Carlos (Santos) contornar grande parte do Circo de Gredos, do Morezón até ao Almanzor. Desta vez o refúgio estava bem mais apinhado, entre eles muitos Amigos que entretanto se tinham refugiado do frio e da nevada que se fazia sentir cá fora. À entrada logo o Kata, que amigavelmente tinha tratado do meu chek-in, me forneceu indicações básicas: o meu cacifo (para colocar a mochila e afins), o meu dormitório (o Galana – cada dormitório assume o nome dos cumes mais afamados do Circo Glaciar), as regras e horários,...

Numa das mesas do Comedor conversavam animadamente alguns Amigos acompanhados do João e o Hélder. Todo o pessoal logo me tentou animar e fiquei aos cuidados sobretudo do médico, o Abílio, que com os frugais meios que ali dispunha me tentou recompor o melhor possível. Mas, afinal parecia que era mais uma questão de tempo, de aguardar, do que de panaceias. Aproveitei também para me aquecer um pouco junto do fogareiro bem concorrido, logo que vagou um lugar.

Mal a subida aos dormitórios foi permitida, cerca das 17.30 horas (lusas) subi ao Galana, que tinha capacidade para 12 pessoas, justamente o meu número. Pois! o refúgio tinha a sua lotação esgotada em todos os dormitórios e por sorte tinha ficado com o último número neste. O quarto não deixava de ser bem frio e logo mergulhei dentro do saco-cama. Dormitei cerca de uma hora, e retornei ao cacifo para dele retirar mais mantimentos para a longa noite.

Dormi razoável, acordando aqui e ali, a espaços, com a entrada de mais um frontal no dormitório, ou com algum calor ou frio a mais, aproveitando então para ingerir oportunos líquidos.

A partir das cinco horas (lusas - Domingo) notou-se uma maior agitação no dormitório, e cerca de uma hora depois arranjei-me para descer ao Comedor.

sexta-feira, março 04, 2005

No Circo Glaciar de Gredos (I)

26 de Fevereiro de 2005

Um Mar de Espuma Branca!


Mês e meio depois de Sanabria, os Amigos realizavam nova incursão em terras castelhanas. Desta vez na ampla serra de Gredos, o tecto do Maciço Central Ibérico, cuja cúpula do seu Circo Glaciar alcança os 2592 metros.

Ainda o Sábado fazia a sua estreia (01.00 h.) e já 19 Amigos partiam rumo a este maciço montanhoso para aí realizarem diversas actividades de carácter invernal. Assim que os veículos se insinuaram no relevo destes imponentes domínios, e já o sol irradiava pujante na linha do horizonte, pudemos apercebermo-nos de novo que este maçico, com os seus longos 140 km de extensão, moldava todo o modus vivendus dos povoados e das comunidades por aquelas paragens. A montanha persistia como a matriz vital e dominante, arreigada a todas as realidades e aparências com que nos deparávamos à passagem.

O terreno de acção seria o Maciço Central, concretamente o paradigmático Circo Glaciar de Gredos onde decorreria a derradeira componente do Curso de Técnicas Invernais, orientado pelo alpinista João Garcia, com a participação de 12 Amigos/formandos. Em paralelo com o Curso, outros sete elementos dos Amigos realizariam actividades de idêntica índole invernal.

E não há fome que não dê em fartura! Da escasssez de neve sentida em Trevinca passou-se para o seu relativo excesso em Gredos! Um autêntivo mar de neve! E não só, pois o glacial frio e a humidade insuflava-se acerbo nos nossos corpos.

Aclimatámo-nos um pouco à ambiência serrana na méson La Bodeguilla, em Hoyos Del Espino, habitué ponto de encontro de montanheiros e não só. Já lá estava o João Garcia e o Hélder (Santos) a bebericarem um chá e umas torradas amanteigadas, que fizemos questão de os acompanhar.

Últimos preparativos e cerca das 11.00 horas o grupo partia a pé, da Plataforma de Gredos, em direcção ao Circo Glaciar, sob a orientação do João. Até ao Prado de las Pozas cruzávamos o rotineiro magote de excursionistas/turistas passeando pelo caminho limpo de neve e desfrutando animadamente das brincadeiras na neve deles. Ao chegarmos à Ponte de Las Pozas, o João teceu algumas considerações úteis para a prossecução da jornada.

Prosseguimos pela vertente acima, acentuando-se o declive assim como a espessura da neve, demasiado fofa. A cabeça do grupo alternava para compartir o esforço de abrir passagem na neve, e à medida que subíamos a temperatura por sua vez descia e o vento gélido e seco acentuava-se. De tempos a tempos passavam por nós esquiadores que imprimiam forte ritmo à sua deslocação, deslizando airosamente.

Almoçámos já no início da descida, junto do painel informativo do Circo Glaciar, mais abrigado das rigorosas condições envolventes.

Retomámos o curso semi-trilhado na neve pela periódica passagem dos inúmeros montanheiros. À medida que nos aproximávamos do coração do circo glaciar o trilho descia a encosta na direcção do sopé do vale glaciar, onde a Laguna Grande de Gredos hibernava, oculta sob uma espessa capa de gelo, forrada pela neve macia. Caminhámos por cima da Laguna bem tranquilos quanto à solidez do solo que calcávamos.

A fila indiana dos 21 papa-léguas prosseguia, por vezes alongando-se à passagem de um ou outro obstáculo, e comprimindo-se de presto como uma harmónica. Ao longe já se avistava o refúgio mais insigne de Gredos, o Elola (1970 m.). Tal maciço granítico que apenas se distinguia dos restantes rochedos, que brotavam do manto branco, pelas suas rectilíneas linhas que resistiam a serem dobradas e erodidas pelo agreste clima e meio envolvente. A certa altura ínfimos fiapos de neve começaram a cair pachorrentamente diante de nossa retina. Tão ínfimos que nem os sentíamos a depositar-se recatadamente em nós.

Nas imediações do refúgio cursámos para leste até o local, por cima da neve, onde seria montado o acampamento base. Depositámos as mochilas e logo começámos a pisar e repisar a neve (uma espécie de pisa das uvas na vindima) com o intuito de se formar uma base mais sólida para se montarem as tendas. Colocámos resguardos do frio entre a neve e base da tenda e recorremos aos piolets e estacas para fixar as espias das tendas na densa neve.

Em nosso redor continuavam a cair fiapinhos de neve...